Arroz, feijão e sorriso!

JANICEGostoso é receber o prato de comida, acompanhado de um enorme sorriso. Sorrisão de mãe com um jeitinho de vó: é a Janice, cozinheira da Escola. Mineira de Belo Horizonte, aprendeu os segredos da cozinha, desde pequena, com a mãe e cresceu perto dos mistérios e encantos do fogão. Um dia, a irmã mais velha, que morava em São Paulo, precisou que ela viesse ajudar por uns tempos a cuidar do sobrinho: foi “Adeus, Belo Horizonte!”. Janice se encantou com a imensa metrópole e mudou-se de vez para a casa da irmã, na Vila Prudente. E foi estudando na primeira escola pública do bairro, o Grupo Escolar República do Paraguay, que conheceu o Luiz Antônio, paulistano da gema, grande amor e companheiro que está com ela até hoje. Casaram-se, vieram os três filhos e, de repente, estavam os três estudando em escola particular. A Educação pesou no bolso e Janice se ofereceu, em troca de desconto na mensalidade, para trabalhar na cantina da escola dos filhos. Sem saber, dava o primeiro passo na direção da sua futura profissão. As crianças cresceram e, apoiada na experiência com a cantina da escola, Janice conseguiu emprego em um hospital e dali pulou para o Colégio Madre Cabrini, na Vila Mariana. Foi a nutricionista de lá que avisou sobre uma vaga de assistente de cozinha na outra escola onde trabalhava, chamada Recrearte, na Aclimação. Hoje, Janice dá uma gostosa risada ao lembrar da entrevista de emprego com a diretora da nova escola, a dona Rosaly, que lhe perguntou de chofre se ela dava conta de fazer um bolo. Respondeu também de pronto: faço já, só não garanto que fique do seu agrado! As duas riram juntas e Janice tornou-se parte da história do Henri Wallon| Recrearte. Um dia, a cozinheira titular foi embora e, com a mesma prontidão que deu a resposta sobre o bolo, Janice disse “sim” ao convite de assumir a cozinha da Escola, onde está há onze anos. Integra carinhosamente, com a equipe da Nutrição, o esforço diário de fazer a meninada comer bem. “Não quer a verdura? Vou colocar só um pouquinho aqui no canto!”, diz ela, que vai colorindo o prato com as comidas diferentes para a meninada abrir o coração e o apetite. Fica toda feliz ao vê-los chegar, cada dia maiores, para pegar o prato querendo dois bifes e dois grelhados e, ainda, choramingando com a “Jane” um ovo mexido: que ela sempre acha uma brecha no movimento frenético da cantina e faz. A “Jane” está por trás de cada receita e até dos biscoitinhos que as crianças preparam nas aulas de culinária: “Porque tem que testar tudo antes de chegar nas mãos dos pequenos, né?!”. De receita nova, ela não tem medo: se a nutricionista propõe uma novidade, a Janice se lança com o seu sorrisão e faz o prato. Não garante que vai ficar do agrado de todos, mas – talvez seja obra do sorriso e do carinho que ela coloca no preparo – sempre fica.

Janice Barbosa Dias é cozinheira do Colégio Henri Wallon | Recrearte.

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O menino que ia ser palhaço

PauloboaAinda pequeno, sentenciou para a mãe: “quando crescer, eu quero ser palhaço”. Ela certamente achou que era uma dessas vontades passageiras de criança, mas Paulo Gaeta tinha nascido mesmo com alma de artista da ribalta. Um dia, ganhou um bonequinho para brincar. Quando a mãe se distraiu, cadê o menino? Tinha levado o boneco e um caixote para a Avenida Angélica, em frente à Praça Marechal Deodoro, onde apresentava seu primeiro espetáculo de rua. Sucesso de público entre os passantes, tanto que lhe rendeu um programa no extinto Canal 5. Não parou mais até se tornar One Man Show famoso pelas suas performances na Avenida Paulista. Quem vê o Paulo em ação nas ruas fica hipnotizado pela sua irreverência, sua coragem de se entregar, seu amor pela arte. Mesmo se o encontramos nos corredores de uma escola, percebemos rapidamente que tudo nele é visceral. Dar aulas também foi um dom que “veio na sua mala”: começou pequeno ensinando a empregada a ler. Nos seus tempos de aluno ficava chocado com a dureza dos professores e a pedagogia da rigidez sem sorriso. Como uma criança que queria ser palhaço podia sobreviver ali? E deve ser por isso que se tornou o professor que é hoje: promotor incansável da liberdade das crianças de experimentar e criar. No Henri Wallon|Recrearte, ele entra na vida dos alunos aos dois anos de idade. Tudo cansa rápido para os pequenos – conta Paulo. E, para mantê-los motivados, realmente é preciso ser artista. Quando chegou na Escola, há quinze anos, “brigava” um pouco com a metodologia, mas conta que aprendeu ali que o método não é inimigo da liberdade. Por trás das atividades lúdicas (às vezes, aparentemente caóticas e barulhentas) que o professor de teatro propõe às crianças, há uma sólida ideologia e um objetivo claríssimo de desenvolver questões fundamentais como coordenação motora, compreensão e criatividade. Atualmente, está trabalhando letras góticas com as turmas. E algum desavisado pode até achar que essas letras angulosas e quebradas que se originaram nos séculos 12 e 13 não têm nada a ver com a vida de uma criança do século 21. Paulo explica: com o traço tem início o exercício do caráter. Realmente, é preciso muita sensibilidade e inteligência para ver a relação entre os traços do caráter e os traços que vamos riscando na folha em branco desde a infância. Mas não é pelo caminho do racional que este professor conduz as crianças. Nas aulas de teatro, acontece a didática do intuitivo, difícil de mensurar, mas também fundamental. Latas vazias, espumas, saboneteiras de plástico, colheres de pau, bolinhas de silicone, arames, bexigas, panos e fitas, muita música clássica ao fundo: e lá vão o Paulo Gaeta e seus alunos mergulhando, juntos, nas aventuras infinitas da expressão e do conhecimento. E nem sempre é fácil, revela: É preciso uma escola aberta, onde tenham coragem de bancar o novo, o inusitado, o fora da caixa’. E Paulo conta que muitas vezes fica em silêncio, reza e agradece, porque encontrou.

Paulo Gaeta é ator e professor de Teatro no Colégio Henri Wallon|Recrearte

Todos a bordo, a aula vai começar!

IveliseIvelise sempre foi uma menina intrigada com o mundo: a natureza nas suas mais diversas formas e cores, os povos de cada lugar e as suas culturas. Determinou-se, desde cedo, a conhecer o mundo de perto, viajar. Ivelise fala de alma cheia: viajei por todos os cantos deste Planeta. Entrou na universidade pela porta do curso de História, mas logo percebeu que a sua paixão era mesmo Geografia. Ivelise não quer olhar o que já foi, ela gosta deste rebuliço do que está acontecendo. Geografia para ela é uma ciência totalmente dinâmica porque o mundo que ela viu de perto está mesmo em constante transformação. Mas aconteceu um descaminho e, como professora, foi dar aulas numa escola muito tradicional, que privilegiava a Geografia Física e o decoreba. Nada de Geografia Política, nada de fazer pensar. Então, Ivelise começou a olhar para fora daquela escola em busca de uma instituição que lhe permitisse uma abordagem mais humanizada. Foi quando ouviu sobre o perfil diferenciado do Colégio Henri Wallon e o seu modelo especial na relação com alunos inclusivos. E lá estava o foco no humano que Ivelise procurava. Levou currículo, conversou com a Thais, Coordenadora Pedagógica, e com a Lourdes, Diretora Pedagógica; e como ela mesma sentencia: – “De cara, bateu o santo!” E não faz muito tempo que Ivelise se tornou parte do time de mestres do Colégio. O decoreba cedeu lugar à curiosidade e às reflexões dos alunos, que, segundo ela, fazem a gente ter esperança no futuro. Porque pensam, questionam, trazem conhecimento para a sala de aula. Com Ivelise, eles vão além das curvas do relevo, das cores da vegetação e mergulham nos dilemas da cidadania, muito discutidos nas Assembleias dos Alunos, da qual a professora faz parte. Com ela, descobrem que, por trás de um tênis de marca, pode haver o trabalho escravo de uma criança num país distante. E, com o tablet, fazem passeios por lugares inusitados no Google Earth ou entram no site do IBGE para responder o Censo. Porque aula, para a Ivelise, tem que ter o sabor das viagens que ela adora. E se alguém quiser uma dica de onde ir nas férias, é só bater um papo com a professora de Geografia. Aliás, as malas já estão prontas: no próximo ano, ela embarca num cruzeiro pelas Ilhas Maurício e os alunos podem esperar que Ivelise volta com a mala cheia de novidades e conhecimento para compartilhar.

 

Ivelise Falcato de Alcântara dá aulas de Geografia no Colégio Henri Wallon Recrearte. É pedagoga, formada e pós-graduada em Geografia.