Um Amigo na Porta

VanioNOVAMuitas vezes, quando os pais e as crianças chegam à Escola, lá está ele na entrada. A cara boa e o jeito firme do Vânio de colocar a meninada para dentro fazem parte da paisagem matinal chamada de “porta do Henri Wallon Recrearte”. Conhece todos pelo nome: “Anda, João Pedro! Vamos, Isadora!”. Já na chegada, os alunos percebem que ali cada um é uma história única, com nome e sobrenome, e todos muito bem guardadinhos na cabeça do Vânio. Faz dez anos que o senhor Wilson, porteiro do Infantil, convidou o sobrinho para trabalhar na Escola.  Foi justamente ajudando a receber os alunos que o Vânio começou. E não podia ter dado mais certo, porque ele tem mesmo o dom de lidar com as crianças. Além dos 512 alunos, nos dois turnos do Henri Wallon Recrearte, ele ainda abraça com força um trabalho social que beneficia 140 meninos e meninas no bairro do Tremembé. Há 20 anos, ele faz acontecer uma escolinha de futebol na Zona Norte, promovendo a inclusão de crianças e jovens através do esporte. O segredo de se dar bem com toda essa garotada, o Vânio não esconde: “Quando você respeita a criança e entende os limites dela, ela te respeita”. Mas a gente sabe que não é só isso. Ele tem um carinho especial pelos alunos. E, quando eles precisam de ajuda, quando uma criança especial precisa,  por exemplo, de alguém para ajudá-la a fazer exercícios e caminhar com  ela pela Escola, lá estão a cara boa e o jeito firme do Vânio. Hoje, a atuação dele no Henri Wallon Recrearte vai muito além da chegada dos alunos. Mas, é na porta que ele diz se deparar com um dos momentos mais emocionantes do seu dia a dia: ver os pequenos, em fase de adaptação, entrarem pela primeira vez resolutos, sem chorar, sem olhar para trás, seguros e felizes. O Vânio olha, então, para as mães, meio felizes e meio tristes, como se ali elas entendessem que um dia eles se vão mesmo, montados na independência que, felizmente, souberam conquistar. E ele apenas sorri daquele seu jeito discreto, orgulhoso do aluno e feliz por fazer parte disso tudo.

Osvânio Quadros é Assistente Operacional e Inspetor Alunos no Colégio Henri Wallon Recrearte.

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Que Venham os Desafios

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Quando se formou em Psicologia, deixou o Magistério para desbravar um novo universo. Era 1991, o presidente Fernando Collor assumia o comando do País, Senna sagrava-se tricampeão da Fórmula 1 e os fãs do Queen davam adeus a Fred Mercury. Com esse pano de fundo, a ex-professora e então psicóloga Rosana, mergulhava num grande desafio: atender os jovens internos da FEBEM. Meia hora de papo com ela basta para entender que Rosana não veio ao mundo atrás de coisas fáceis. Na FEBEM, tornou-se uma das responsáveis por avaliar as condições dos internos para poderem voltar ao convívio familiar.  Mas logo a sua crença na possibilidade de realizar um trabalho humano, sério e profundo na instituição, desmoronou. Novos ventos levaram Rosana para a próxima peleja: a UTI de Oncologia do Hospital Infantil Darci Vargas. O desafio de levar orientação e conforto para crianças com câncer e às suas mães não era simples. Rosana adorava. Podia estar lá ainda hoje, se a empresa que bancava o serviço para o hospital não tivesse fechado as portas. Foi quando olhou para trás e sentiu saudade dos tempos do Magistério. Mas como voltar depois de nove longos anos fora? Não ia ser fácil. E tudo bem, porque se fosse fácil, ela não ia gostar mesmo. Começou dando aulas de português para coreanos recém-chegados ao Brasil. E cuidou de levar um currículo na escola da Rua Guimarães Passos. Boas línguas diziam que lá poderia realizar o trabalho humano e profundo que vinha tentando fazer na FEBEM e no Darci Vargas. E foi para o seu jeito sensível e corajoso de encarar o inusitado, e não para os nove anos fora, que as diretoras do Henri Wallon Recrearte decidiram olhar. Rosana ganhou o seu espaço na Escola. Começou dando aulas para o 3º ano e rapidamente as suas suspeitas se confirmaram: ali estava uma instituição comprometida com o desenvolvimento humano. Lembra, por exemplo, que logo no primeiro ano foi implantada a “Regra dos 5 S” de qualidade total que não tinha visto em nenhuma outra escola. E lembra também, orgulhosa, das experiências desafiadoras com alunos inclusivos na sua sala de aula. E fica emocionada quando fala dos momentos mais áridos nos quais teve medo de não conseguir, do apoio incondicional da Escola e das palavras que ouviu das mantenedoras: “Vem para você porque você dá conta.”. E é assim: Rosana está lá onde o caminho precisa ser construído, onde a luz precisa ser acesa, onde a solução precisa ser encontrada; e é verdade: ela dá conta. Alunos, professores, funcionários do Henri Wallon Recrearte são, como ela diz, a sua segunda família. Ela está firmemente ancorada na Escola pela sua crença nos métodos e nas relações que a sustentam. E nós certamente seremos melhores e mais felizes se ela continuar aqui por mais 14 anos.

Rosana Garrido Russo é psicóloga, pedagoga e professora do 5º ano da manhã da Escola Henri Wallon Recrearte.

Bagagem Compartilhada

MariaLuciaUma oportunidade de trabalho para o marido, e lá se foi Maria Lúcia morar nos Estados Unidos, de mala e cuia e levando no colo o pequeno Filipe. Para trás, deixou parentes, amigos e o trabalho de assistente de direção numa instituição de Ensino. Em San Diego, a família cresceu com a chegada da Roberta e o Filipe começou a frequentar a escola. Maria Lúcia, como outras mães voluntárias, viu as portas do universo escolar norte-americano se abrirem para ela. Em pouco tempo, a professora americana percebeu que ali estava mais do que uma mãe de aluno: o interesse genuíno pelas ferramentas e metodologias pedagógicas e a postura firme e segura em classe revelaram alguém que conhecia e adorava os desafios da Educação. As portas, então, se abriram mais e Maria Lúcia virou assistente das professoras. Quando chegou a hora de voltar para o Brasil, tinha a bagagem enriquecida de novos conhecimentos e valiosas experiências educacionais. E foi antes mesmo desse retorno que ela ouviu falar do Henri Wallon/Recrearte. A prima, que então era Supervisora de Ensino em São Paulo, apontou a Escola, entre várias instituições, como um espaço conduzido por educadoras realmente comprometidas e com o prazer de ensinar, assim como Maria Lúcia. Primeiro foram Filipe e Roberta quem experimentaram a Escola, onde se alfabetizaram em português. A mãe sempre de olho, sempre perto, participando ativamente como fazia em San Diego: criava jogos, abria a mala e oferecia tudo o que aprendera no outro país. E foi assim que as mantenedoras da HWR também perceberam o dom de Maria Lúcia, e também abriram os portões para que ela viesse trabalhar ali, coordenando a Educação Infantil. Vão-se uns vinte anos desde que Maria Lúcia entrou naquele avião para San Diego. Parte do que ela aprendeu pôde ser aproveitado em vários projetos da escola. Sorte que ela voltou com a mala cheia de conhecimento e de generosidade para compartilhar.

Maria Lúcia Bueno de Campos atualmente é assistente administrativa do Henri Wallon/Recrearte. Roberta e Filipe ficaram na Escola até o 9º ano. Hoje, ela estuda Odontologia e ele Administração, ambos na USP.